Judas redivivo e desagravado
Fonte: http://www.teologiabrasileira.com.br/Materia.asp?MateriaID=275
Autor: Augustus Nicodemus
Judas redivivo e desagravado
Tratado como "descoberta" arqueológica, o "evangelho" que apresenta
Judas como amigo de Jesus não merece o estardalhaço
10-04-2006 Cumprindo o ritual que acontece todos os anos na época da
Páscoa, a grande mídia acaba de veicular mais uma matéria bombástica
diretamente relacionada com o Cristianismo. Trata-se da tradução de um
manuscrito copta do século IV que supostamente conteria uma tradução
do evangelho apócrifo grego de Judas, cuja origem é estimada em meados
do século II. A restauração e a tradução do manuscrito copta foram
anunciadas nessa quinta-feira, 6 de abril, pela National Geographic
Society em Washington.
A veiculação pela mídia vai na mesma linha de propaganda e
especulações anticristãs voltadas mais diretamente contra a Igreja
Católica Romana e que acaba respingando nos protestantes,
especialmente nas igrejas históricas. O ano passado foi o Evangelho de
Tomé. Uma suposta sepultura de Jesus, uma inscrição antiga contendo o
nome de Tiago, irmão de Jesus, e outras "descobertas" arqueológicas,
fizeram a festa da mídia em anos mais recentes.
Ninguém deve se assustar pensando que essa atitude é um fenômeno
atual. Desde os primórdios do Cristianismo, escritores pagãos como
Celso e Amiano Marcelino publicam material atacando as Escrituras e o
Cristianismo. A ignorância dos articulistas, o preconceito
anticristão, a busca do sensacionalismo, tudo isso contribui para que
a publicação do manuscrito copta receba uma atenção muito maior do que
a devida.
Não quero ser mal compreendido. Como pesquisador e estudioso do Novo
Testamento, estou sempre aberto para descobertas arqueológicas e novas
pesquisas que nos tragam subsídios para melhor entender o mundo do
Novo Testamento e a sua mensagem. Creio que a publicação do evangelho
de Judas contribui para nossa compreensão do Gnosticismo e da seita
dos Cainitas, autora do documento.
Contudo, estou acostumado a assistir, anos a fio, a exploração
sensacionalista dessas descobertas. Lembro-me bem da descoberta dos
Manuscritos do Mar Morto e das polêmicas e questões inclusive legais
que envolveram a tradução e a publicação dos primeiros rolos. A
imprensa da época especulava que os Manuscritos representariam o fim
do Cristianismo, pois traria informações que contradiriam
completamente o Evangelho. Os anos se passaram e verificou-se a
precipitação da imprensa. Os rolos na verdade tiveram o efeito
contrário, confirmando a integridade e autenticidade do texto
massorético do Antigo Testamento.
Com o objetivo de esclarecer e trazer alguma sobriedade na avaliação
da publicação, faço as seguintes observações sobre a publicação do
texto do manuscrito.
1. Não se trata da descoberta do Evangelho de Judas. O mesmo já é um
velho conhecido da Igreja cristã. Elaborado em meados do século II,
provavelmente na língua grega, era conhecido de Irineu, um dos pais
apostólicos. Na sua obra Contra as Heresias, Irineu o menciona
explicitamente, como sendo uma obra espúria produzida pelos gnósticos
da seita dos Cainitas. No século V o bispo Epifânio critica o
Evangelho de Judas por tornar o traidor em um feitor de boas obras.
2. Não se trata também da descoberta de um manuscrito antes
desconhecido contendo essa obra. Acredita-se que o único manuscrito
conhecido, escrito em copta, foi descoberto em meados da década de
1950 e depois de uma longa peregrinação nas mãos de colecionadores,
bibliotecas, comerciantes de antiguidades e peritos, chegou às mãos
das autoridades. Sua existência foi anunciada ao mundo em 2004.
Trata-se de um códice com 25 páginas de papiro, envoltas em couro, das
62 páginas do códice original. Somente essas 25 páginas foram
resgatadas pelos especialistas. A tradução que vem a lume agora é
dessas páginas.
3. O que é de fato novo é a tradução do texto desse apócrifo, texto
até então desconhecido. Contudo, o ponto central que a mídia tem
destacado com sensacionalismo, já era conhecido mediante as citações
de Irineu e Epifânio, ou seja, que esse evangelho procura reabilitar
Judas da pecha de traidor, transformando-o em vítima e herói. Na
década de 80 saiu o romance "Eu, Judas", de Taylor Caldwell, publicado
pela Círculo do Livro, onde essa versão revisada de Judas foi
difundida.
4. Várias matérias publicadas na mídia dizem que Judas Iscariotes é o
autor desse evangelho. Contudo, não existe prova alguma disso. Segundo
o relato dos quatro Evangelhos canônicos, Judas suicidou-se após a
traição. Como poderia ser o autor dessa obra? Irineu, no século II,
atribuía a autoria do evangelho de Judas aos Cainitas, uma seita
gnóstica. No códice descoberto e agora publicado, não consta somente o
evangelho atribuído a Judas, mas duas obras a mais: a "Carta a Filipe"
atribuída ao apóstolo Pedro e "Revelação de Jacó", relacionado com o
patriarca hebreu. A presença do evangelho de Judas em meio a essas
duas obras apócrifas é mais uma prova da autoria espúria desse
evangelho. Chega a ser irritante o preconceito da mídia, que sempre
veicula matérias que negam a autoria tradicional dos Evangelhos
canônicos, mas que rapidamente atribui a Judas Iscariotes a autoria
desse apócrifo.
5. Evangelhos apócrifos e pseudepígrafos eram comuns nos primeiros
séculos da era cristã. O Evangelho de Judas é mais um deles. Outros,
mais conhecidos, são o Evangelho aos Hebreus, o Evangelho de Tiago, o
Evangelho de Maria Madalena, o Evangelho de Filipe, o Evangelho de
Tomé, entre outros. O texto desses apócrifos já é conhecido de longa
data. Judas, contudo, somente agora vem à lume.
6. O manuscrito que agora foi traduzido não data do século II, mas do
século IV. Especula-se que é uma tradução para o copta de uma obra
mais antiga escrita em grego, que por sua vez dataria de meados do
século II. Daí a inferir a autoria de Judas Iscariotes, que morreu na
primeira parte do século I, vai uma grande distância. A seita dos
Cainitas, segundo Irineu em Contra as Heresias, era especialista em
reabilitar personagens bíblicas malignas, como Caim, os sodomita e
Judas. A produção de um evangelho reabilitando o traidor se encaixa
perfeitamente no perfil da seita.
Ao final, pesando todos os fatos e filtrando o sensacionalismo e o
preconceito anticristão, a publicação do evangelho de Judas em nada
contribuirá para nosso conhecimento do Judas Iscariotes histórico,
apenas para nosso maior conhecimento das crenças gnósticas do século
II. Não representa qualquer questionamento sério do relato dos
Evangelhos canônicos, cuja autoria e autenticidade são muito mais bem
atestadas, datam do século I e receberam reconhecimento e aceitação
universal pelos cristãos dos primeiros séculos.
O texto do evangelho de Judas se encontra disponível no site da
National Geographic Society, no link:
http://www9.nationalgeographic.com/lostgospel/_pdf/GospelofJudas.pdf
Augustus Nicodemus Lopes é paraibano e pastor presbiteriano. É
bacharel em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte (Recife),
mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom
(África do Sul) e doutor em Interpretação Bíblica pelo Westminster
Theological Seminary (EUA), com estudos no Seminário Reformado de
Kampen (Holanda). Foi professor e diretor do Seminário Presbiteriano
do Norte (1985-1991), professor de exegese do Seminário JMC em São
Paulo, professor de Novo Testamento do Centro Presbiteriano de
Pós-Graduação Andrew Jumper (1995-2001), pastor da Primeira Igreja
Presbiteriana do Recife (1989-1991) e pastor da Igreja Evangélica
Suiça de São Paulo (1995-2001). Atualmente é chanceler da Universidade
Presbiteriana Mackenzie e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana de
Santo Amaro. É autor de vários livros, entre eles O Que Você Precisa
Saber Sobre Batalha Espiritual (CEP), O Culto Espíritual (CEP), A
Bíblia e Sua Familia (CEP) e A Bíblia e Seus Intérpretes (CEP). É
casado com Minka Schalkwijk e tem quatro filhos – Hendrika, Samuel,
David e Anna.






